17/04/2017 às 08:40:00

Por que a Síria de Bashar al-Assad é tão importante para a Rússia de Putin

Redação
Vladimir PutinDireito de imagemAFP
Image captionPutin tem um grande capital político, estratégico e pessoal investido em seus laços com o governo sírio

A atitude do presidente russo Vladimir Putin de apoiar o regime de Bashar al-Assad na Síria tem incomodado cada vez mais o Ocidente. Na terça-feira, os chanceleres do G7, grupo que reúne as nações mais industrializadas do planeta, alegaram não terem a intenção de "isolar ainda mais a Rússia no cenário internacional" ao decidirem não impor novas sanções contra Moscou por sua aliança com o governo sírio.

No entanto, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tillerson, está em Moscou para pressionar o presidente Vladimir Putin a parar de apoiar Assad, a quem o Ocidente acusa de ter realizado um ataque com armas químicas contra civis na semana passada .

Os esforços de Tillerson, que, no passado, tinha boas relações com o Kremlin, podem ter resultados irrelevantes - não só porque os russos já não veem mais riscos de sanções prejudiciais, como também pelo profundo compromisso de Putin com a Síria.

O presidente russo não está necessariamente ligado a Assad. Ele inclusive chegou a criticá-lo durante entrevista ao jornal alemão Bild, em 2016. "(Assad) cometeu muitos erros durante o conflito. Vocês e eu sabemos que o conflito não teria alcançado tal amplitude se desde o início não tivesse sido alimentado a partir do exterior por enormes quantidades de dinheiro, armas e combatentes", disse Putin na época.

Mas certamente o presidente russo não quer ver o colapso do governo de um país no qual tem interesses estratégicos, políticos e pessoais, além de ter feito um grande investimento militar e econômico.

Estratégia

"A intervenção na Síria, combinada com a vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos (que muitos atribuem a uma manipulação de Moscou) é o maior sucesso de Putin nos últimos anos", disse Famil Isamilov, do serviço russo da BBC.

Rex TillersonDireito de imagemREUTERS
Image captionSecretário de Estado americano, Rex Tillerson, chegou a Moscou com o objectivo de pressionar Putin a ficar longe do regime sírio

Após as sanções impostas pelo governo do ex-presidente Barack Obama e da União Europeia, depois da anexação da Crimeia e do conflito na Ucrânia, o Ocidente tinha virado as costas para Moscou. A Rússia estava a caminho de se tornar um país isolado.

"Com a sua intervenção na Síria, Putin deu as costas a essa situação. Ele abriu um espaço internacional de prestígio para ele e para a Rússia", disse Ismailov. "Ele era um líder na luta contra o terrorismo, bem como o único capaz de resistir à imposição dos Estados Unidos no mundo."

O analista de política internacional e especialista no Oriente Médio, Mariano Aguirre, concorda que a última coisa que Moscou quer é deixar que o governo sírio caia e que o poder possa ser tomado por um ou mais grupos jihadistas.

Putin em encontro na RússiaDireito de imagemREUTERS
Image captionPutin é um aliado do governo sírio, mas não necessariamente de Assad

"Moscou teme que a Síria se torne uma 'zona livre' para este tipo de milícias e que elas passem a coordenar e operar com radicais islâmicos na Rússia", disse o analista internacional à BBC Mundo.

"Em princípio, (Putin) se recusa a aceitar que há uma 'mudança de regime' político através da força - como aconteceu na Líbia em 2011 - e menos ainda que a mudança possa ser conduzida a partir do Ocidente", disse Aguirre.

Política

Em termos de interesses políticos, Putin equilibra dois elementos: nacionais e internacionais.

Quanto à política externa, com a sua aliança com o governo na Síria, a Rússia retorna à briga pelo Oriente Médio, depois de estar muito tempo marginalizada.

"O regime sírio, não necessariamente Bashar al-Assad, é um aliado na região onde você quer ganhar peso", Aguirre disse, embora afirme que esse peso é relativo.

"Os poderes verdadeiros na região são locais: Irã, Israel, Arábia Saudita e Turquia. Nem os Estados Unidos nem a Europa ou a Rússia têm hoje o peso que teve nos dois séculos anteriores", explicou. "Hoje, a influência é conseguida através de alianças com as autoridades locais".

Embora isso seja complicado pela volatilidade e complexidade de interesses, Famil Ismailov assegurou que Moscou está surgindo como um "player" importante na região.

Rey Abdalá e PutinDireito de imagemREUTERS
Image captionRei Abdullah, da Jordânia, tem sido um dos muitos líderes do Oriente Médio que visitaram Putin em Moscou

"Muitos países do Oriente Médio têm se voltado para a Rússia para dar assessoria, treinamento e armas", disse o editor do serviço russo da BBC.

"Em primeiro lugar, o Irã é praticamente o mais forte aliado de Moscou. Mas representantes do governo na Líbia, Egito e Líbano recentemente também viajaram a Moscou", disse ele.

O rei Abdullah 2º da Jordânia viajou a Moscou em janeiro para formular estratégias para combater o terrorismo na região e discutir questões de cooperação econômica.

Mesmo a Arábia Saudita, vista como o país da região mais próximo do Ocidente, iniciou negociações com a Rússia pela primeira vez em muitos anos para procurar estabilizar o mercado de petróleo.

Mas, para além desta nova estrutura no cenário internacional, o que acontece internamente é que a sua imagem dentro da Rússia é muito importante para o presidente.

Do ponto de vista russo, "é aquele que apostou na luta contra o Estado Islâmico quando o Ocidente não poderia encontrar soluções e é visto como o único que está fazendo algo contra o terrorismo", disse Famil Ismailov.

Apesar de setores da oposição classificarem seu governo como repressivo, Putin restaurou o orgulho do povo russo, afirma Famil Ismailov. "Ele é visto como o único que pode impedir o ataque constante da visão americana de mundo."

Militar

A intervenção na Síria não traz qualquer benefício militar, disse à BBC Mariano Aguirre. No entanto, a Rússia "estrategicamente disputa com os Estados Unidos para ser uma potência global."

Almirante Kuznetsov e outros navios russos ao longo da costa síriaDireito de imagemEPA
Image captionAlmirante Kuznetsov e outros navios russos ao longo da costa síria

Um dos problemas que a Rússia tem para se projetar como uma potência militar tem sido a idade de seus equipamentos bélicos e a falta de preparo do seu exército.

Para Famil Ismailov, o cenário sírio tem servido para a Rússia desenvolver e testar suas novas armas, e tem sido um treino excelente para os militares, especialmente para as unidades especiais.

"Sua frota naval lançou a partir do mar Cáspio com novos mísseis de longo alcance que sobrevoaram o território iraniano e iraquiano e fizeram um impacto considerável e preciso em alvos na Síria. Esses ataques foram considerados um grande sucesso, do ponto de vista militar e de prestígio."

Além disso, a Rússia enviou ao Mediterrâneo uma frota naval que escoltou o porta-aviões Kuznetsov à costa da Síria.

Embora o Kuznetsov seja uma embarcação velha, ele está servindo para lançar voos de reconhecimento e ataque. Mais importante ainda é que sua equipe está recebendo treinamento em um conflito atual, o que não se compara a uma academia.

Econômico

A aventura na Síria "é uma grande despesa", na opinião de Mariano Aguirre, "e com um custo político numa forte crescente, dado que 20% da sociedade russa se opõe ao envolvimento na guerra na Síria."

O encargo financeiro é particularmente oneroso porque a economia russa continua a depender fundamentalmente de petróleo.

Neste contexto, é talvez uma sorte que o G7 decidiu não impor novas sanções contra Moscou. Ele explicou que o grupo de nações não teve a intenção de isolar a Rússia.

Mas também pode ser um reconhecimento à presença de Putin na Síria após o grande investimento a longo prazo que foi feito e comprovado com a construção de bases militares e melhorias de outras.

A base aérea de Khmeimim, na costa do Mediterrâneo, foi construída em 2015. Embora ela compartilhe algumas instalações com a Força Aérea da Síria, o acesso a ela é exclusivo para funcionários russos.

Aviões na SíriaDireito de imagemAFP
Image captionA base aérea de Khmeimim é um projeto a longo prazo nos planos militares russos na Síria

Moscou assinou um contrato de arrendamento com a Síria por 49 anos, renováveis ​​por 25 anos - o primeiro pacto desse tipo a longo prazo no país.

Além disso, a base naval em Tartus, antes uma pequena instalação para manter a frota russa, foi expandida para funções completas de reabastecimento e manutenção, sem a necessidade de navios de guerra precisarem voltar para sua base no Mar Negro através dos estreitos turcos.

Pela primeira vez, a Rússia juntou empresas privadas para operações, treinamento e segurança, disse Ismailov. Elas são compostas de militares aposentados que voltaram a atuar por contratos lucrativos.

Além disso, "as armas russas são fortes no mercado e suas vendas estão no céu", disse ele.

Pessoal

O aspecto pessoal é um dos fatores cruciais na incursão de Vladimir Putin no conflito sírio.

Preservar o seu legado, seu prestígio e seu orgulho são grandes motivações para o presidente, cujo ego e narcisismo têm sido objeto de análise constante na imprensa.

O ponto é que os Estados Unidos acabam de eleger um presidente com um ego e narcisismo comparável.

Bonecos de cera de Trump e PutinDireito de imagemEPA
Image captionÉ uma questão de quem é mais "macho"? As figuras de cerade Trump e Putin em exposição na Bulgária

Em um confronto de dois presidentes, ninguém vai dar o braço a torcer facilmente. De acordo com Ismailov, "é uma questão de quem é mais 'macho'".

Pelo menos na Rússia, não está claro quem é: "Para muitos russos, Putin é o homem do momento", disse o editor do serviço russo da BBC.

Sendo assim, Mariano Aguirre não acredita que a política de Putin na Síria vai mudar em breve.

"Inicialmente, não acho que ele recuou. A sua credibilidade perante a sociedade russa está em questão", concluiu o analista.

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